In De Wildeman: o doce bar selvagem

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Os amantes da cerveja artesanal têm uma grande afeição por bares. Não comecem a esculachar. É que a maioria das cervejas artesanais bebidas in loco e não envasadas são mais saborosas e consistentes que as da garrafinha. Então um bom bar é coisa de se guardar como um bom amigo. Dessa maneira, temos uns preferidos por cidades que conhecemos e hoje vamos falar do In De Wildeman (O Selvagem), nosso queridinho em Amsterdam.

Ele fica no centro velho da cidade, em uma travessinha do calçadão da Nieuwendijk, rua comercial que sai do Dam Square. Não é muito fácil de achar, mas nem tão difícil assim. A generosidade do bar começa com uns bancos e umas mesinhas baixas pro povo do tabaco beber lá fora. Lá dentro 18 torneiras revezam as melhores artesanais e trapistas. Em seu cardápio outras duzentas e tantas cervejas disputam nossa atenção.  Além das belgas e holandesas, eles têm boas opções da Grã-Bretanha, Estados Unidos e Alemanha.

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O prédio do bar era uma antiga destilaria e foi conservado o ambiente rústico, com madeira, tonéis pelas paredes, quadros, dísticos, flâmulas e todo e qualquer material que lembre uma boa cerveja. As  paredes cheias de recordações colocadas há mais de 20 anos, um piso xadrez preto e branco e moveis desgastados completam o clima e fazem o aconchego do bar. Em um dos seus ambientes, uma estante com guias e anuários sobre cerveja ajudam a você escolher o que beber. Mas se ficar perdido com tanta opção, não se preocupe: o povo que trabalha no In De Wildeman é ótimo conhecedor de cerveja e te pergunta que gosto você quer sentir e ainda fica dando amostras (teasers) das torneiras pra não dar erro. Isso sem contar que são uns/umas holandeses lindos e bem humorados. E, se tudo isso te faltar, vai na opção “cerveja do mês ou da semana” que é impossível não ser deliciosa.

O In De Wildeman tem três salões pequenos em níveis diferentes e um balcão sem bancos. Você paga a cada cerveja que bebe para não dar confusão com o entra e sai constante. Se você preferir e/ou ficar mais tempo no bar, pode sentar-se à mesa e pedir a conta no final. Toda cerveja é servida em seu próprio copo e esta é uma atração a mais. Lá dentro não rola música, só o conversar dos grupos de amigos e mesmo de desconhecidos que começam um papo como se estivéssemos no Rio ou na Bahia. O que impera é o à vontade e a paixão pela cerveja.

Ele é freqüentado por muitos locais que vão à saída do trabalho, mas sua fama atrai pessoas de todo o mundo. Ao contrário de seu pessoal treinado e gentil, o dono não prima pela simpatia, preferindo fazer o papel de In De Wildeman (o selvagem), mas ele vai muito pouco pra lá. Está sempre a visitar cervejarias e destilarias da região pra trazer novidades para o bar.

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O IDW não serve refeições. Para acompanhar suas cervejas, eles oferecem embutidos deliciosos, queijos trapistas (excelentes, não deixe de provar) e amendoins ou similares. Mas se você tiver fome, no calçadão do bar tem fast food chines, um quiosque de batatas fritas inesquecíveis, cafés, burgers e restaurantes de churrasco argentino e um mais metidinho de cozinha internacional. Em frente ao bar tem um coffee shop para,se você quiser, fumar haxixe ou maconha, que são legalizados por lá. Amsterdam é hoje a única cidade holandesa onde a venda ainda é permitida a estrangeiros. Uma dica preciosa, porém: não intercale álcool e canabináceos: embora alguns possam estar acostumados à mistura, tanto a cerveja quanto a maconha vendida por lá podem derrubar um cavalo.

Em 2012 tivemos a sorte de mais uma vez passar pelo IDW nas comemorações do Jubileu de Prata do bar. Seu prestígio é tão grande que a americana Flying Dog, uma das cervejarias mais inovadoras do mundo, fez uma receita especial pra festejar o aniversário. E assim nasceu a edição limitada da Wildeman Farmhouse IPA, uma cerveja personalíssima com sabor de pão fermentado e bastante lúpulo. Remete às origens da feitura da cerveja e foi apreciada pelos profissionais do copo. Tivemos a sorte de bebê-la fresquíssima na torneira e também engarrafada nos Estados Unidos. A Flying Dog fez um filme promocional comemorando o Jubileu e acrescenta que ela “tem gosto de insanidade”.

Enfim, o In De Wildeman é um dos cantinhos bons que existem pelo mundo e, se você tiver oportunidade de conhecê-lo, não deixe para depois. Ah! dentro do bar funciona um competentíssimo wi-fi.

PS >>> Este post dedicamos ao Nick que sempre nos serviu com alegria e à holandesa JJ.

Serviço:
Kolksteeg 3 1012 PT Amsterdam – http://www.indewildeman.nl/
Abre das 12h00 às 2h00, exceto segunda, aberto só até a 1h00.
Fecha aos domingos.

Westvleteren: Melhor Cerveja Do Mundo Que Só Se Bebe Ali Perto Onde Os Monges A Produzem

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fotos de Cilmara Bedaque

 Nós, Lupulinas, adoramos fazer turismo cervejeiro. Visitar pequenas cervejarias pelo país e pelo mundo é garantia de nos depararmos com regiões, cidades e situações que não constam nos roteiros e guias regulares. Para isso, o automóvel tem sido um grande aliado, já que as fábricas, mosteiros e micro-cervejarias se localizam em pequenas cidades do interior deixando a hospedagem mais barata e a viagem mais divertida :)

Um dia, decidimos que era o momento de conhecer a tão falada Melhor Cerveja Do Mundo Que Só Se Bebe Ali Perto Onde Os Monges Produzem. Fomos então para Westvleteren, oeste da Bélgica, quase na fronteira com a França, na Abadia de Saint Sixtus, em frente ao In de Vrede, bar-restaurante onde se bebe a tal Melhor Do Mundo.

É bom que se saiba que os monges produtores de cerveja trapista são da Ordem dos Cistercienses Reformados de Estrita Observância (amamos este nome) e que, mesmo existindo 170 mosteiros desta ordem no mundo, apenas sete têm licença para produzir a renomada iguaria líquida. Seis deles ficam na Bélgica (Rochefort, Westmalle, Westvleteren, Orval, Achel e Chimay) e um na Holanda (La Trappe).

Poperinge, a capital do lúpulo belga

Vínhamos fazendo pequenas escalas pelos Países Baixos, desde Amsterdam, e resolvemos nos hospedar em Poperinge, pequena cidade de 12 mil habitantes a 11 km da abadia. Pouso calculadamente estratégico, bem perto da Melhor do Mundo. Por recomendação do amigo Edu Passarelli, ficamos no Café de La Paix que, além de pequeno hotel, é também um restaurante com ótimas cervejas locais. Se você preferir fazer um bate-e-volta, vindo de cidades mais conhecidas e turísticas, há boas opções: Westvleteren fica a 70 km de Bruges (um encanto de cidade e com três ótimos bares/cervejarias, sobre os quais falaremos em outro post), a 135 km de Bruxelas e 280 km de Paris.

Vale pernoitar em Poperinge, cercada pelas plantações dos melhores lúpulos da Bélgica e uma cidade muito agradável, cheia de história. Logo na praça principal nos surpreendeu a estátua de um ser, digamos, peculiar: uma espécie de Don Quixote gnomo, montado de costas num burro e carregando uma rocha no colo. Descobrimos depois que a figura era um tal de Squire Ghybe, ser asqueroso que representa as três cidades vizinhas rivais (Gent, Bruges e Yeper), potências da indústria tecelã que governavam a província de Flandres (o burro) de maneira equivocada (de costas) carregando a cidade de Poperinge (a rocha).

In de Vrede e Saint Sixtus

Como não existem ônibus, carroças ou trens para Saint Sixtus, foi indispensável o uso do carro e um GPS porque os monges trapistas desta abadia não gostam de placas indicativas e outras facilidades que observamos em outros monastérios que visitamos. Chegar a Westvleteren é uma espécie de Corrida Maluca praticada com prazer pelos amantes da cerveja em todo o mundo (mesmo os 11 km desde Poperinge foram cheios de voltinhas).

Depois de nos perdermos e nos acharmos, encontramos a abadia, que passava por algumas reformas e muitas dificuldades financeiras. Das sete abadias com certificados para a fabricação de cervejas trapistas no mundo, o mosteiro de Westvleteren é o único que não exporta nem comercializa suas bebidas fora da região. Eliminando custos, as garrafas não têm rótulo. Isso lhe confere certa mística, mas também limita a entrada de grana. Apesar disso, eles não pretendem aumentar a produção que é trabalho de apenas dez dos trinta beneditinos que vivem no monastério.

É para o sustento dos monges e para a manutenção da produção que, em frente à abadia, funciona um grande bar que serve exclusivamente os três tipos de cervejas Westvleteren e vende copos, queijos e outros itens. Atenção, porque não é restaurante. Para acompanhar as cervejas, você pode escolher o maravilhoso queijo trapista feito com a própria cerveja, alguns embutidos, conservas e só.

Se você quiser levar bebida para o hotel ou para o Brasil, prepare-se: é dificílimo sair dali com garrafas. Quem sai com um pacote de seis, por exemplo, tem que ter agendado a compra e deve trazer de volta os cascos no dia seguinte, sob pena de ser banido para sempre (Tá, esse papo de ser banido é um exagero, mas é verdade que é quase impossível sair com garrafas de Westvleteren). Enfim, beba o que você quiser beber ali mesmo. Serão momentos inesquecíveis. Só para sofrermos, informamos que cada Wesvleteren custa um euro e sessenta centavos, menos que uma Skol na balada /o\

Qual o segredo da Melhor Cerveja do Mundo? Apostamos que há algo naquela levedura, guardada a sete chaves pelos monges desde 1838. Por sorte, ela também pode ser apreciada nas cervejas St Bernardus, da vizinha cidade de Watou que, até 1992, fabricava as Westvleteren (que depois voltaram a ser produzidas na abadia de Saint Sixtus, exigência para ostentar o selo “trapista”). Assim se você quiser saber, de longe, qual o sabor da Melhor do Mundo, beba uma St Bernardus, facilmente encontrada aqui no Brasil nas melhores casas do ramo.

Trapistas e Abadessas

Fugindo de nosso estilo resolvemos descrever as sensações que tivemos em Westvleteren experimentando a sacrossanta cerveja e suas aparentadas.

WESTVLETEREN BLONDE – garrafa de 33 cl 5,8%alc – Altamente lupulada, álcool esparramado e redondo, espuma persistente e generosa agarrando-se ao copo. Cítrica, levemente picante, mas de maneira harmoniosa com outros ingredientes, esta blonde deixa um sabor levemente amargo e delicioso em sua boca.

WESTVLETEREN BRUIN 8 – garrafa de 33cl 8% alc – dark ale – Cor marrom, chocolate bem escuro, como é característica das darks, com espuma consistente e generosa. No olfato, caramelo e marzipã, levemente perfumado. Muito lúpulo ou a qualidade do lúpulo usado nos lembra o tempo todo que estamos bebendo um líquido feito à base desta planta. Na boca, um chocolate e álcool muito bem balanceados como se um licor sem açúcar estivesse em nossa boca. Mais que chocolate sentimos a presença do cacau.

WESTVLETEREN BRUIN 12 – garrafa de 33 cl 10,2% alc – ainda uma dark ale de cor marrom parecidíssima com a 8. O aroma frutado lembrando frutas pretas nos remete às amêndoas que estão presentes também em seu sabor. Alta complexidade em seu paladar revelando um lúpulo de excelente qualidade e uma receita de raro equilíbrio. Talvez a melhor cerveja que tenhamos bebido em nossas vidas até agora. Maltada sem ser enjoativa graças às arestas proporcionadas pelas especiarias e pelo lúpulo. Aquece.

ST BERNARDUS PATER 6 – garrafa 33 cl 6,7% alc – abadessa – uma cerveja de alta fermentação, refermentada na garrafa, da região de Watou. Boa espuma, leve, de coloração marrom turva. Na boca, é redonda, sem arestas e com boa acidez. Não é doce, nem caramelizada e seu amargor é leve.

WATOU’S BIERRE BLANCHE – garrafa 33 cl 5% alc – cerveja típica da região. Alta refrescância, aroma e gosto de limão dominantes. Uma verdadeira limonada com lúpulo.

ST BERNARDUS Abt 12 – garrafa 33cl 10% alc – abadessa refermentada na garrafa com espuma densa e cremosa, aroma lupulado e cacau. Cor marrom escura e opaca. No paladar, amêndoas, secura e álcool bem amarrado ao lúpulo.

ST BERNARDUS TRIPEL 8 – garrafa 33 cl 8% alc  – servida com levedo num copinho à parte, no In De Wildeman, bar de Amsterdã, que merece um post no futuro. Os toques de marzipã e amêndoas, presentes na levedura do copinho, são bem mais sutis no copão. A dica é beber um pouco da levedura do copinho intercalando com goles da cerveja e ir adicionando aos poucos a levedura ao copão.

 

Na saída de Poperinge atravessamos campos e campos preparados para a nova safra de lúpulos recém semeados. As estruturas de madeira que servem de apoio ao lúpulo, uma planta trepadeira, erguiam-se lado a lado da estrada. Uma boa imagem para despedida que só nos deu a brilhante idéia de voltar na época da colheita.

 



In de Vrede

Donkerstraat 13

8640 Westvleteren

Telefone In de Vrede: 057/40.03.77

 

Abbey Saint Sixtus of Westvleteren

Telefone Westvleteren: +32 (0)70/21.00.45

 


 

#OPORTUNIDADE de 8 a 17 de novembro acontece a Semana da Cerveja Belga em São Paulo e Campinas,  promovida pelo Consulado da Bélgica. Muitos rótulos com descontos.

Mais informações https://www.facebook.com/events/1380225542202210/?ref=22