Yes, nós temos cervejas!

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fotos: cilmara bedaque

Muitos leitorxs nos perguntam qual é a cerveja boa. A resposta é muito difícil porque existem muitas cervejas sensacionais pelo mundo todo e, além disso, essa opinião envolve preferências e momentos. Sem contar que, enquanto escrevemos este post, mais e mais brejinhas estão sendo inventadas pelos mestres artesanais \o/

Um lugar na Vila Madalena nos chamou a atenção o ano passado porque, além de vender só cervejas artesanais brasileiras, o seu dono – Oliver Buzzo – traz com orgulho essa proposta no slogan do bar: De Bruer – 101 cervejas brasileiras.

Unindo o agradável com o melhor ainda ;) resolvemos conversar com o Oliver bebendo algumas brasileiras que, quando vocês encontrarem, não deixem de experimentar. É uma pequena lista com estilos diferentes de cerveja e que não pretende ser um ranking das melhores. É só a constatação que a artesanal brasileira está em um nível que não tínhamos há três anos.

Lupulinas: Bares especializados em cervejas artesanais normalmente oferecem também cervejas importadas. Seu bar é o único que conhecemos que vende apenas artesanais nacionais e inclusive faz disso um slogan.
Oliver: Essa proposta é única do Brasil, pelo que eu acompanho. Mas acho que esse ano mais um maluco resolve abrir um bar só de nacionais artesanais.

Lupulinas: E por que ninguém mais faz isso?
Oliver: Porque ninguém acreditava que era possível. Falei com muito dono de bar e os caras me falavam “cara, não é possível, o público quer cerveja importada e não existem tantas cervejas artesanais brasileiras boas como as importadas”. Eu abri o De Bruer no final de novembro de 2012 e naquela época era essa a realidade mesmo, havia poucas artesanais brasileiras.

Lupulinas: O que você fazia antes de abrir o bar?
Oliver: Eu era home brewer, mas nunca fui um bom cervejeiro (risos). Mas eu tava no meio da moçada. Eu criei uma webTV  (2011/12) e no meu tempo vago eu gravava em vídeo a atividade da moçada. Aí, porque eu estava no meio cervejeiro, eu saquei que tava muita coisa acontecendo e que viria muita cerveja artesanal brasileira em 2013 e que seria possível o bar viver disso. E foi o que aconteceu. Em meados de 2013 apareceu um monte de cerveja boa e o bar se sustenta apenas com as brasileiras.

Lupulinas: Uma das reclamações que a gente ouve dos produtores e também dos donos de bar (as duas pontas do negócio) é a distribuição precária. Como você percebe esse gargalo?
Oliver: Hoje, em São Paulo, capital, a distribuição está bem organizada. Só. Só existe um lugar no Brasil que você tem acesso às cervejas artesanais, principalmente brasileiras. Nem no Rio tem. Em Curitiba, onde a gente tem os maiores produtores de artesanais brasileiras, não tem uma cena de bares onde você possa tomar cerveja artesanal ou local. Todo mundo que tá distribuindo, tá em São Paulo. Mas é também porque o maior mercado consumidor de cervejas artesanais é aqui. Agora acho que a tendência é se espalhar para o resto do país.

Lupulinas: Nós somos um país enorme e existe essa “obrigação” de distribuir o produto para o Brasil inteiro, como faz a grande indústria. Mas isso meio que contradiz um conceito original da cultura cervejeira artesanal que é “consuma a cerveja local, da sua região”. O que você acha?
Oliver: Concordo. Mas aí conversando com os produtores, você ouve que “não conseguem vender” a cerveja que fabricam no local. Você vê uma cervejaria tipo Bamberg e nota que eles não conseguem vender para a população local, que não tem o hábito de artesanais. Aí a Bamberg manda tudo aqui pra São Paulo. São Paulo compra toda cerveja artesanal de Curitiba, um absurdo. Às vezes falta Bodebrown em Curitiba. E quando chega ao Rio, o preço é exorbitante.

Lupulinas (com o auxilio luxuoso de Pedro Alexandre Sanches): Você disse que em 2013 mudou tudo, mudou muito, como assim?
Oliver: Qual era o maior problema antes para as cervejarias artesanais? Pela legislação, os órgãos do governo não fazem distinção entre o cara que produz 100 mil litros de cerveja e um que produz 100 milhões. Então, para construir uma cervejaria, nossa, cara, você não acredita no nível de exigências que o governo faz. Tem que lidar com vários órgãos de governos nas três instâncias, municipal, estadual e federal. Uma loucura. Leva anos. Então, o que acontece? A produção de cerveja artesanal era um hobby muito caro. Se você olhar a 1ª geração de cervejeiros artesanais brasileiros, são todos “filhinhos de papai”, todos (sem querer desmerecer por isso). Porque o pai bancava, ou então era negócio da família de muitos anos. Custa milhões montar uma cervejaria, por causa do equipamento e da burocracia.
Em 2012 comecei a perceber uma segunda geração, de classe média, que queria entrar nesse negócio de fazer cerveja, mas que não tinha acesso. Esse pessoal, em 2013, encontrou um caminho, que é o cigano: eles alugam espaço ocioso em cervejarias que já existem e se tornam parceiros. Eles desistiram de brigar com os governos a cerca da carga tributária e passaram para esse esquema. Mas a questão burocrática depende também. Tem prefeituras que o cervejeiro conseguiu conversar com o poder local para conseguir incentivos e derrubar barreiras.

E foi assim. Temos assunto para muitos papos ainda e muita cerveja brasileira boa para experimentar. Vamos citar algumas que foram muito bem saboreadas naquela noite:

. Black Rye IPA (Bodebrown, PR)
Uma black IPA feita com malte de centeio tostado e que é um soco forte e seco. Uma preta que não é doce e é aromática. Não é rala, nem densa: o álcool diz “oi”, e os lúpulos, “beleza, fera”. Para beber lentamente. ABV 8,3  IBU 80

. Jan Kubis (Cervejaria DUM, PR)
Lançamento de 2013, uma lager sensacional da cervejaria curitibana DUM. Refrescante, leva muito malte de cubada e lúpulos cítricos. O nome é homenagem a um soldado tcheco que lutou na resistência contra a invasão nazista. ABV 5,3 IBU 52

. Green Cow IPA (Cervejaria Seasons, RS)
Provamos essa excelente IPA direto da torneira, durante o IPAday2013 em Riberão Preto. Agora, engarrafada e com um lindo rótulo fluorescente estampando uma vaca verde, ela continua deliciosa. Recomendamos.  ABV 6,2 IBU 62

. Hoppy Day (Cervejaria Tormenta, PR)
Em 2013 a Cervejaria Tormenta deixou de ser caseira para começar a engarrafar e distribuir. A Hoppy Day é uma Ale levíssima e refrescante (nos lembrou uma session IPA), com profusão de lúpulos cítricos e herbáceos. Passa por dry hopping. Com humor avisam no rótulo: “ATENÇÃO!  Como toda cerveja lupulada, ela deve ser consumida o quanto antes. Lúpulo fresco é sempre mais gostoso!” ABV 6,5 IBU 61

. 1000 IBU (Cervejaria Invicta, SP)
Não é novidade que a Invicta faz cervejas maravilhosas. Para comemorar dois anos de existência, a cervejaria se superou e lançou em 2013 a 1000 IBU, uma imperial IPA que é uma porrada de lúpulo. Surpreendentemente, o amargor da cerveja é bem distribuído e permanente, misturando-se muito bem ao álcool. ABV 8  IBU ? (embora mestres cervejeiros admitam q seja impossível um IBU acima de 100, o nome faz uma provocação a este horizonte infinito de amargor)

. Rauchbier (Cervejaria Bamberg, SP)
Rauchbier é na verdade um estilo de cerveja que, por tradição, leva maltes defumados, daí seu sabor que lembra levemente um bom pedaço de bacon. Esta rauch da Bamberg já ganhou muitos prêmios (inclusive  de segunda melhor rauch do mundo) e pode acompanhar uma feijoada ou um charuto (sério, já fizemos isso). ABV  5,2  IBU 25

. Witte (Cervejaria Wäls, MG)
Uma cerveja nacional de trigo feita à moda belga. De cor amarela, clara e turva, tem um sabor levemente cítrico e picante. Levíssima, é ideal para o verão e para acompanhar peixes e frutos do mar. ABV. 5 IBU 20

Ficou por último neste post, mas não é coisa pra ser deixada pra trás: a cozinha do De Bruer é excelente e faz a companhia perfeita para um bom papo, um lugar gostoso e cervejas com inúmeras possibilidades. Neste dia experimentamos um tapa delicioso e um hamburger de carne suína que fez nosso amigo Pedro Alex mais feliz \o/

DE BRUER

Rua Girassol, 825 – Vila Madalena – SP
Fone: (11) 3812 7031
Horário de funcionamento
Segunda a Quarta das 18:00h à Meia Noite
Quinta a Sábado das 16:00h à 01:00h
Domingo das 16:00h às 23:00h

 

2cabeças: a cervejaria louca por lúpulo

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Trocamos a marca por mais lúpulo.

Com esta frase a 2cabeças começou um lance original no mundo cervejeiro artesanal do Brasil. Devemos confessar: a palavra lúpulo nos é muito cara ;) e fomos ver o que está acontecendo naquelas cabeças.

A cervejaria já havia antecipado a surpresa no seu site , mas foi no Mondial de La Bière, no Rio de Janeiro, que o estande e as novas idéias chamaram a atenção da galera. Vale lembrar que originalidade é marca da 2cabeças: sua primeira cerveja produzida foi uma black IPA e não a costumeira blonde que todo micro cervejeiro faz para agradar ao mercado.

Outro aspecto inusitado é que a 2cabeças não tem fábrica própria e sempre faz sua produção – depois de inventada nos “laboratórios” da empresa – em parceria com outra cervejaria amiga. Com a Brewpub Penedon lançou no Mondial a sazonal X-Imperial Lager. Antes já havia feito a Saison à Trois com a cervejaria Invicta. No Mondial foi apresentada também a X-SessionIPA – que entra em produção contínua – com 4,7% de álcool, como as cervejas industrializadas, mas com 45 IBU (unidade de amargor) trazendo a potência de uma American IPA, deixando-a ainda mais refrescante e aromática, ideal para o clima em nosso país.

Fizemos uma entrevista com a 2cabeças para saber mais de sua história e seus planos. Um prazer termos no mercado gente que ousa, faz de seu sério trabalho uma provocação e se diverte com isso \o/

 

Lupulinas – A 2cabeças marcou sua história pela ousadia e quebra de paradigmas que cercam o mundo cervejeiro artesanal. Conte um pouquinho sobre o inicio da empresa e a função de cada um da diretoria da 2cabeças.

2cabeças – A 2cabeças surgiu com dois cervejeiros caseiros, Bernardo Couto e Salo Maldonado, e no início de 2012 lançamos o primeiro lote de Hi5 no mercado. O sucesso foi grande, e aí começamos a nos estruturar melhor. Depois de algum tempo, conseguimos estabilizar a produção, lançar a Hi5 e a Maracujipa em garrafas. Mas nunca queremos perder a alma do cervejeiro caseiro, que é de inovar e ter compromisso apenas com qualidade. No início de 2013 tivemos a entrada da cervejeira Maíra Kimura, o que nos ajudou a crescer mais e deixou nosso time mais forte. Então, hoje dividimos muito as funções e tentamos agir o mais coletivamente que podemos, mas podemos dizer, em linhas gerais, que o Salo cuida da área comercial, financeira e novos projetos; Maíra da operação, logística e gestão e Bernardo da produção de cervejas e comunicação da 2cabeças.

Lupulinas – Afinal são três ou duas cabeças?

2cabeças – Duas cabeças pensam melhor que uma! Acreditamos no coletivo, na combinação de elementos, no equilíbrio. O nome veio disso, nunca foi por sermos duas pessoas a fundar a cervejaria. Mesmo no começo, houve a possibilidade de entrar um terceiro elemento, e não foi cogitado mudar o nome. Há uma associação às pessoas, que é natural, mas esperamos que ela perca força pois, como falei, o coletivo sempre vence. Uma empresa não é apenas o espelho dos fundadores, dos sócios ou de quem for. É o resultado de um trabalho de várias pessoas, que vão passando pela empresa.

Lupulinas – Vocês foram muito ousados em destruir a marca 2cabeças, que já começava a se firmar no mercado cervejeiro alternativo, para adotar o X (sem marca). Por que essa decisão?

2cabeças – A gente não matou o nome 2cabeças, apenas a logomarca e os rótulos. Achamos que era o momento de mudar, de buscar outros caminhos em termos visuais, e ainda há novidades que vem por aí. Aguardem cenas do próximo capítulo.

Lupulinas – Vocês vão dar novos nomes às suas já consagradas garrafinhas. O quê vai virar o quê, quais as novidades e qual tipo de cerveja não vai mais ser feita por vocês.

2cabeças – Dentro desse conceito de não marca, deixamos as cervejas com nomes genéricos, como X Black IPA. É, também, uma homenagem aos cervejeiros caseiros que não batizam suas cervejas, muitas vezes, assim como não rotulam. Mas, naturalmente, não vamos abandonar os nomes das cervejas definitivamente. Hi5 e Maracujipa tem uma história muito importante e verdadeira para a gente. Fora elas, lançamos nossa X Session IPA, que está inserida neste momento sem marca e depois entra em nova fase. Ela é uma versão de IPA mais leve, com foco em drinkability, mas sem perder o caráter de lupulagem extrema que uma IPA pede. Ela será mantida na nossa linha fixa. Já era uma receita que planejávamos lançar há meses e finalmente conseguimos!

Lupulinas – “Trocamos a marca por mais lúpulo” é o slogan da mudança da empresa. Vocês acham que esta paixão pelo lúpulo veio pra ficar no mercado cervejeiro artesanal?

2cabeças – Acho que o lúpulo representa a quebra de paradigma das cervejas de massa. A atitude, a vontade de ser diferente. Dentro deste segmento, ele é muito importante, e está cada vez mais em alta. Ele é o tempero da cerveja, e muita gente não gosta de comidas insossas como as congeladas de produção de larga escala. Muito melhor a lasanha da vovó, cheia de recheio e temperos, do que algo genérico para microondas, massificado e feito com foco em critérios como baixar custo, ser o mais neutro possível e ter um índice de rejeição mais baixo possível. Buscamos o melhor, e o melhor para mim pode desagradar a muitas pessoas. E isso é ótimo, viva a pluralidade! Não acreditamos apenas no lúpulo, mas na diversidade e na ousadia. A acidez é algo que virá, assim como a utilização de insumos locais em maior quantidade.

Lupulinas – Qual o principal entrave para baratear as cervejas artesanais brasileiras?

2cabeças – O imposto é cruel e não faz distinção do tamanho das empresas. Então, produtos mais caros de se produzir geram impostos mais altos e assim chegam ainda mais caros para o consumidor final. Para vender uma long neck de cerveja artesanal, uma cervejaria acaba pagando, muitas vezes, só de imposto mais que o preço de uma cerveja de massa custa no mercado. E aí, temos outros impostos embutidos no custo, como questões trabalhistas (há muitos mais funcionários por litro produzido em relação às grandes), custo de importação de insumos, fundamental já que não há lúpulos nem maltes especiais de origem. Temos a famigerada ST, que gera uma bitributação quando o produto sai do estado produtor. O custo de frete é alto no país. É uma bola de neve.

Lupulinas – Qual a principal dificuldade para distribuir suas cervejas?

2cabeças – Ter uma produção regular, já que não temos cervejaria própria, e acompanhar mais de perto a distribuição fora do Rio de Janeiro. Somos pequenos ainda, então acabamos não tendo braços para estarmos mais próximos. Mas temos distribuição hoje em cinco estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul. Já houve interessados em distribuir para outros estados, mas por enquanto estamos focando nestes para manter um controle melhor. Elas acabam chegando a alguns outros estados através de clientes que compram direto da gente, mas é algo pequeno ainda.

Lupulinas – Quem faz a distribuição da X para todo o Brasil?

2cabeças – Da 2cabeças, né? :) Não temos distribuição nacional, como falei acima. No Rio, temos a nossa distribuidora. Nos estados citados, temos representantes regionais que fazem este trabalho em parceria com a 2cabeças. Nos estados onde não temos distribuição, nossa atuação se resume a compra direta da nossa distribuidora no Rio de Janeiro. Desta forma, hoje há cervejas da 2cabeças no Mato Grosso e no Piauí.

Lupulinas – Finalmente, agora, aquele “furo de reportagem” para as Lupulinas… ;)

2cabeças – Estamos preparando mudanças e tudo isto foi planejado. Trocamos a marca por mais lúpulo por que nós quisemos. Não fomos processados, como muitos falaram. Não brigamos entre nós. O Eike não comprou a 2cabeças. Não vamos mudar as receitas das nossas cervejas que estão no mercado… ufa!